Doze crianças representam a pureza, a fé e a continuidade da tradição no emocionante ritual do “Almoço dos Inocentes”, um dos momentos mais sagrados do ciclo do Marabaixo na Favela. O ato simbólico relembra a Santa Ceia e fortalece a devoção Nas caixas de marabaixo, no canto forte dos ladrões e na dança que atravessa gerações, o Marabaixo continua sendo a maior e mais autêntica expressão cultural da ancestralidade afro-amapaense. O ciclo do Marabaixo é secular e representa memória, resistência e devoção do povo negro do Amapá. Entre os muitos rituais que compõem essa tradição, o “Almoço dos Inocentes” ocupa um lugar sagrado na história da comunidade marabaixeira da Favela, atual bairro Santa Rita, em Macapá.
A celebração carrega marcas profundas da trajetória e na história, especialmente do período em que governador da época, Janary Nunes promoveu mudanças urbanas durante o tempo do Amapá como território federal. Naquele contexto, famílias negras que tradicionalmente realizavam o Marabaixo em frente à Igreja de São José foram convidadas a se retirar do centro da cidade, numa reorganização urbana que fragmentou comunidades e afastou o povo negros de seus espaços históricos de vivência cultural e religiosa.
A dor da separação ecoou em versos eternizados por Gertrudes Saturnino de Loureiro, uma das maiores referências do Marabaixo no Amapá. Em forma de ladrão, ela transformou sofrimento em canto e memória:
“Pelo jeito que estou vendo
querem me deixar sozinha
vou com uns para a Favela
os outros vão pro Laguinho”.
Os versos traduzem o sentimento de um povo dividido entre dois territórios que, mais tarde, se tornariam símbolos da resistência cultural negra em Macapá: o Laguinho e a Favela.
Foi justamente na Favela que Tia Gertrudes consolidou sua missão de guardiã da tradição. Mulher negra, liderança comunitária e referência do Marabaixo, ela dedicou sua vida à preservação da cultura afro-amapaense. Criou o quadro de sócios da “Santíssima Trindade dos Inocentes”, fortalecendo a organização do ciclo e garantindo que a festividade continuasse viva ano após ano.
Gertrudes transformou o barracão em um verdadeiro espaço de formação cultural e preservação da ancestralidade negra. Reunia crianças e jovens para ensinar os saberes do Marabaixo, compartilhando os toques da caixa, os ladrões e os passos da dança herdados dos antigos mestres. Seu trabalho ultrapassava o ensinamento da tradição popular: era uma missão de fortalecer a identidade, a memória e o sentimento de pertencimento das novas gerações.
A origem do tradicional “Almoço dos Inocentes” nasceu de um profundo ato de fé e devoção vivido por Tia Gertrudes. Sua filha, Natalina Costa, enfrentava o sofrimento provocado por sucessivas perdas gestacionais, carregando a dor das gravidezes interrompidas antes do nascimento dos filhos.
Marabaixeira raiz e figura marcante da cultura popular amapaense, Natalina foi eternizada nos versos de Joãozinho Gomes e Val Milhomen no trecho da canção: “Natalina falou, gengibirra não é mole não”, tornando-se símbolo da resistência, da alegria e da ancestralidade do povo negro do Amapá.
Diante do sofrimento, Gertrudes recorreu à Santíssima Trindade e prometeu que, caso a filha conseguisse levar uma gravidez até o fim, realizaria todos os anos o ciclo do Marabaixo na Favela em honra à Santíssima Trindade.
A promessa foi alcançada. Natalina não apenas teve um filho, mas tornou-se mãe de doze filhos, todos criados dentro da tradição marabaixeira, fortalecendo ainda mais os laços entre fé, família e cultura popular.
Como cumprimento da promessa nasceu o “Almoço dos Inocentes”, ritual que se transformou em um dos momentos mais emocionantes do ciclo. A celebração reúne doze crianças, geralmente entre dois e seis anos de idade, que participam de um almoço simbólico servido pelos festeiros do Marabaixo. O ato representa pureza, inocência e devoção, fazendo referência à Santa Ceia de Jesus Cristo e à Santíssima Trindade.
Mas o significado do ritual ultrapassa a religiosidade. O “Almoço dos Inocentes” é também uma afirmação da continuidade da cultura negra amapaense. Cada criança sentada à mesa representa a permanência da ancestralidade, a força da memória coletiva e a certeza de que o Marabaixo continua vivo nas novas gerações.
No barracão que hoje leva o nome de Tia Gertrudes, a tradição segue ecoando entre caixas, saias rodadas e cantorias ancestrais. Em tempos de transformações urbanas e apagamentos históricos, o ciclo do Marabaixo permanece como símbolo da resistência afrodescendente no Amapá, reafirmando a identidade de um povo que transformou dor em cultura, fé em celebração e memória em patrimônio vivo.
A PROGRAMAÇÃO
Neste domingo, 31, a comunidade marabaixeira volta a se reunir no tradicional barracão da Tia Gertrudes para celebrar mais uma edição do “Almoço dos Inocentes”, mantendo viva uma das mais importantes tradições de resistência, fé e memória do povo negro do Amapá.
A programação inicia às 8h, com missa na Igreja Santíssima Trindade, seguida de café da manhã comunitário. Ao meio-dia, será servido o tradicional almoço dos inocentes, reunindo famílias, devotos e convidados em um momento de partilha e celebração cultural. A programação encerra com uma tarde lúdica dedicada às crianças da comunidade e convidados, fortalecendo os laços de convivência e preservação das tradições marabaixeiras.






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