Protagonismo e arte: Amapaense de 11 anos brilha na cultura, vence preconceitos e ganha prêmio máximo da educação na França
Destaque em projetos de literatura, música e dança, a estudante Angelina Barbosa Teixeira conquistou o Grande Prêmio Bosc-Lascours e foi aplaudida pela alta cúpula educacional de Toulouse.
Foto: Acervo familiar Por: Alessandro Brandão
O talento, a inteligência e a energia da juventude amapaense conquistaram de vez o sul da França. A estudante Angelina Barbosa Teixeira, de apenas 11 anos e nascida em Macapá, foi a grande estrela de uma das premiações escolares mais tradicionais e respeitadas da cidade de Toulouse: o prêmio Bosc-Lascours.
A conquista da jovem ganha contornos impressionantes pelos números: entre todas as escolas públicas da quarta maior cidade da França, apenas 12 alunos foram selecionados para a honraria neste ano de 2026. No entanto, Angelina foi além. Graças ao seu envolvimento marcante com a comunidade escolar, ela e mais um estudante foram os únicos dois a receber o Grande Prêmio, a distinção máxima da noite.
Morando em Toulouse desde abril de 2023 com a mãe, Samya Tirza Barbosa, Angelina rapidamente transformou a escola em seu palco de desenvolvimento. Com uma facilidade rara para idiomas, ela alcançou a fluência perfeita no francês em apenas seis meses — um processo que costuma levar mais de um ano para a maioria dos estudantes estrangeiros. Hoje, fala com tanta naturalidade que os nativos se surpreendem ao saber que ela nasceu no Brasil.
Mas o que realmente encantou o conselho de professores da École Fabre foi o protagonismo cultural de Angelina. Ela se tornou uma liderança natural dentro e fora da sala de aula, envolvendo-se ativamente em múltiplos projetos.
"A Angelina é muito participativa. Ela faz parte de projetos de literatura, de leitura, e também de iniciativas de dança e cultura. Ela tem um comportamento exemplar, é super inteligente, ajuda os professores e está sempre muito à frente", conta a mãe, orgulhosa.

Calando estereótipos sobre a Amazônia na "Sala dos Ilustres"
A entrega do prêmio foi digna de um roteiro de cinema. O evento aconteceu na luxuosa Salle des Illustres (Sala dos Ilustres), dentro da prefeitura de Toulouse — um espaço histórico cercado de arte e reservado apenas para os grandes acontecimentos franceses.
A solenidade contou com a presença da alta cúpula da cidade: o secretário do prefeito, o diretor regional da educação das escolas públicas e o diretor da Caisse des Écoles (órgão que coordena o suporte e materiais escolares da região).
A vitória de Angelina na prefeitura de Toulouse carrega também um significado político e social profundo para a região Norte do Brasil. Samya relata que, na Europa, o desconhecimento sobre a nossa região ainda é imenso e carregado de visões caricatas.
"Quando você fala do Brasil aqui, as pessoas só pensam no Rio de Janeiro. Quando você fala do Norte, vem uma ideia muito vaga da Amazônia, de que é um lugar totalmente subdesenvolvido, que não tem rua, perguntam se tem casa, como a gente morava... Ver o potencial que as pessoas do Norte têm só comprova a falta de conhecimento deles", afirma Samya.
O "filme" na cabeça e a consagração final
Durante a cerimônia, o cerimonial começou a chamar os alunos homenageados por ordem alfabética de suas escolas. Quando chegou a vez da École Fabre, os colegas de Angelina foram chamados, mas o nome dela foi pulado.
Mãe e filha chegaram a pensar que havia ocorrido um erro na lista. O que elas não sabiam era que a organização havia preparado uma surpresa de gala: os nomes dos dois vencedores do Grande Prêmio foram guardados em segredo para o encerramento da noite. Quando o secretário anunciou: "E agora, os Grandes Prêmios do ano", o nome de Angelina ecoou no salão sob aplausos.
Para Samya, ver a filha de 11 anos subir naquele palco suntuoso diante das maiores autoridades de Toulouse foi um momento de chorar de emoção. Ali, passou um filme na cabeça de quem enfrentou as dificuldades financeiras do início da imigração e, principalmente, o julgamento de quem não acreditava no sucesso delas.
"Muitas pessoas no nosso percurso me julgavam, diziam que minhas filhas iam sofrer, me faziam sentir culpada e diziam para eu voltar para o Brasil porque não daria certo. Mas a gente persistiu, acreditou, teve fé em Deus e as coisas deram certo. Eu chorei quando ela subiu", emociona-se a mãe.
Além do troféu e de livros de literatura, a amapaense recebeu uma recompensa financeira de 200 euros da prefeitura como incentivo. Em setembro, Angelina dará mais um passo importante ao ingressar no Collège (equivalente aos anos finais do Ensino Fundamental II).
A história de Angelina Barbosa Teixeira não é apenas a conquista de um diploma na Europa; é a prova viva de que a juventude do Amapá e da Amazônia tem brilho, voz e inteligência de sobra para ocupar os espaços mais ilustres do mundo.







COMENTÁRIOS